terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Ad nauseum ad infinitum




"A vida de uma mulher é a história dos seus afectos."
Washington Irving (1783-1859)





Um quarto para a uma. Um quarto para uma. Fala que diz das horas ou sobre algo mais? Uma e um quarto. Uma num quarto. Tanto que pode ser sobre uma vulgar multiplicação hipotética de um momento que se repete, se repete e torna a acontecer. Um quarto para as quatro. Quatro e um quarto – sendo somente ela.


Uma. E um quarto, pequeno e grande. Na imensidão que conhece de cor, mesmo que a pele falhe mesmo que os olhos ceguem mesmo que a consciência doa mesmo que tudo falhe. Um quarto exíguo e desmedido, diferente: ao meio a cama feita. Os lençóis lavados em alinhamento impecável com as almofadas, um candeeiro que imita a burguesia numa banal chinesice. Um tapete persa que nem um gato. Malhado de pegadas negras a contraste com a brancura das paredes. Tão ásperas, rugas transversais ao medo no lugar cândido de onde ficaria bem uma natureza morta. Quatro paredes, e um quarto.

Uma num quarto. Ela vai e vem. Vaivém, austera para com o exílio no lugar do crime. Umas vezes, ela, parece que se vai num ápice. E que já não voltará. Porque aquela cama não é para regressos. Pelo contrário – aquele é o quarto de todos e só dela. Adeus. A cama de todos, a deus. Todos aqueles que a acompanham ao abismo e que vão com ela até à porta pisando o tapete de pegadas manchado. Aqueles todos que, na volta, não dormem. Adeus. E é quando ela volta. Precisamente quando não queria regressar. Para as suas paredes brancas, ocas em queda rasa. Para limpar e arrumar as cinzas, para mudar os lençóis e alinhá-los em relação às almofadas. Para a companhia do gato persa, macio, que não existe. Enfim.

Um quarto para uma – somente ela. Um quarto para a uma. Serão horas à fala entre si, sobre tudo? Sobretudo. O candeeiro burguês ou chinês partido na base e com isso inchando as pegadas do gato negro pelas paredes desertas, apenas. O quarto como um tronco cortado ao meio, tão corrupto tão sujo. Mas ainda assim, sereno. De pé.

Um quarto para as quatro. No vaivém habitual, ela carregando às costas a esperança de que se regressasse ao ontem e talvez amanhã pudesse ser mais feliz ou ter feito feliz mais alguém. Num momento hipotético e repetido exaustivamente. A multiplicar todos os trunfos por uma questão de sorte: o ás de copas, redondo e vermelho, esquecido algures entre o descontentamento e duas notas de conforto.

Sem fim à vista, olha da janela o mundo exterior. As casas e os passeios, a respiração da cidade e há um sonho de criança que lhe acena. Parece que parte nesse embalo frágil e negligente, para não voltar. Mas a campainha soa como um grito. Um gemido. E agora? E agora, as veias explodem perante o segredo que guarda. Desse sonho, somente ela. E agora? Geme, grita – quer que tudo falhe. A pele rígida das pedras da calçada, os olhos cegos para mais não ver. A consciência em colapso posterior ao crime. O lugar em que lhe dói. Mesmo que tudo falhe. E agora? Agora. A campainha pára. Ainda assim, ecos de um grito. Repercussões de um gemido, um esgar de esperança. Enfim. E agora?


Quatro e um quarto. Arrumado e limpo. Pequeno e grande. Somente ela – omitindo o tempo que tanto lhe falta, até à próxima vez. Porque às vezes, acontece. Ou então, nunca, nunca mais.


sábado, 5 de dezembro de 2009

Auto Retrato (como conto nunca escrito)




Viver é como escrever sem corrigir
- António Lobo Antunes



Hoje é domingo a um sábado mas poderia ser eu num outro dia qualquer de rompante, diante do espelho que imagem é a minha diante de mim olho-te e sei o que mostras. Sonolento, algo amorfo. Tem dias que aborrecido por vezes com as coisas insondáveis à compreensão e ao entendimento do comum mortal – que se escrevesses um romance acaso algum dia esteja preparado e talvez começasse por uma ilha sucedendo à dúvida: o que une as personagens e o que as move para a separação? Certo, certo é que tem de haver algo que as torne isso mesmo. A tentativa e o erro, a dúvida e a certeza. Tal como tu neste instante aqui, parado frente a frente sem mais nada, sem roupa nem expressões consoante o rosto, agora és tu que apareces e pairas sobre ti e te olhas como há muito. De perfil, num plano ligeiramente mais neutro e desconheces o temor que é estar de costas voltadas. Será que é por acreditares que o peito que se dá às balas devolve toda o pesar através dos anos volvidos. Mas menos nítidos e mais baços e menos indiscutíveis como duas notas soltas ao piano. É isso. É isto: divagar sem medida nem remédio, sem esclarecimento nem explicações. Falo para ti em surdina e não pretendo que me respondas, não importa se estamos de acordo, ou se por outro lado és o avesso daquilo que eu gostaria e não tenho, daquilo que vou tendo e jamais procurei. Não importa, e não tem mal. Hoje

vim até aqui para fazer a barba, numa banalidade convencional a exemplo. Chegar com a pele molhada do banho e não saber que a lâmina fina atravessa os poros da pele arrancando os princípios e os fins da idade. Mas tu aí, como dizes? Cansado. Dormir horas a mais também cansa, pois. Outrora jovem e fulgurante. E cara de rapaz sem pêlo nenhum, sem esforço ou sinais de desgaste. Melhor: sem ter que te encarar logo pela manhã com esse ar de protector das minhas ideias e dos meus pensamentos. Porque eu bem que ouço escreveres à máquina tudo o que eu digo - faz-me lembrar aquelas vozes que nunca se ausentam nos momentos delicados - e tanto apaziguas o tumulto das águas, bem como estás na origem de mais uma tempestade. Pelo menos, mentalmente, intrínseca e visceral. Tens coragem, ao menos admito. Tudo o resto podem ser defeitos mas olhando bem para ti, bravo. Transparente nas figuras de estilo e limpo na sua concepção. Sem correcções nem borrachas redentoras. Ponto a ponto, parágrafo atrás de parágrafo nesse género de servidão para com a palavra e o seu peso. A gramagem de tudo o que absorves e bebes enquanto eu tento adormecer. Tenho esse som metálico a roer-me por dentro, pergunto-me como és capaz de aguentar esse barulho às vezes de tão ininterrupto, que nada te interrompe, que nada irrompe a tua exactidão e medida verbal. Talvez as palavras sejam realmente coisas, umas com nome e as demais sem identidade. E ao fim ao cabo somos este corpo com palavras por dentro. Mas enfim

por natureza, os espelhos não mentem. E quem se coloca ao seu alcance só pode assumir a verdade e o que é verdadeiro. Custe-te ou não, é como aquele provérbio chinês em que o dizer e o fazer significam rigorosamente o mesmo. Simbolizam o mesmo acto. Ora, continuas a tecer considerações com a barba por fazer. Despido, cru e desleixado. Não faz mal, não tem importância. No entanto, agora dou-me conta que habitas há muito anos nessa morada plácida, de vidro – contando exaustivamente todos os registos que foste amontoando. Quase que tropeçaríamos na nossa existência se nos cruzássemos. Aliás, como muitos dos encontros e desencontros que se travam no mundo das pessoas. É quanto baste. E aí

voltamos à questão de que não podem haver contemplações, nem sujeitos confusos nem complementos dispersos. Há que ir mais ao âmago, lá, onde certos são os alicerces que se vão gastando. De quando em vez colocar-lhes uma dose de resistência ao redor mas com cuidado. Para que não cedam em sobressalto à tentativa de nada os corrigir. É o que tiver de ser, diz quem sabe. Como e quando são suposições e não vale a pena contrariar o desígnio do artista para com a sua obra. Deixemos para os mestres e para os sábios a aprendizagem futura. - Estás a ver isto? Era exactamente o que eu não queria. Estar nesta triste figura a falar para quê. Não é fácil o confronto entre duas forças desiguais. E este desabafo surge-me agora como uma maratona em que vão dois pelotões disputando a chegada. Falta um terço dos quilómetros para acabar o cortejo em andamento e a progressão de ambos é livre, desconexa. Há um fosso cavado nos que se superam em relação aos que atingem o seu limite. A qual pertences? Se é que te dás a tal honra

não sei. Talvez não corra como dantes. Nem tão veloz nem demasiado rápido. No caso, um ritmo mais dominado, mais assertivo. Sabes? O pé já não é o de antes. Passei do sprint à fase de consolidação. Agora tem de ser pela certa. Há que deixar passar a banda e acompanhar a cadência – a régua e esquadro como se estivesse marginalizado por todas as danças que não aprendi nem todos as coreografias que jamais saberei. Mais a mais, o que importa realmente no caminho senão a forma como chegas. As coordenadas que nos fazem mover tanto podem dar para a esquerda como dar para a direita. Segues adiante e oxalá não pense sequer recuar. Não pode ser – e há tanto que é tarde demais. Mas deixemos isso para a velhice. Para quando numa mesa de café depois de almoço, me suster por um olhar mais vagaroso e mais observador enquanto aguardo café e toradas com pouca manteiga. Em conversa com os amigos de sempre – também eles mais velhos – passarmos a pente fino as esperanças que entretanto foram ficando para trás e no fim de contas ainda haver algo que possamos amar estupidamente numa noção infinda. De concreto, só mesmo o abandono das estações nessa idade irreversível, nessa estação por inventar. O cigarro como o companheiro de nuvem presente a talhar essas memórias avulsas que hão de vir e partir na exacta medida do cigarro aos lábios – o fumo saindo para a rua e ficando em parte retido em grande último vapor. Está bem, deixemos isso para amanhã. Hoje

não. Continuas. Bem sei porque ficas com essa cara de anjo inconformado ou falso fantasma desvanecido. Raios partam a nostalgia. A melancolia, a saudade. Ou este fado mundano, este libreto de versos que só tu consegues memorizar. A sério que me pergunto como resistes a toda a enxurrada de lembranças que até desenterras da morte só para as reescreveres nesse som metálico à máquina de escrever. Não tens de responder. Pergunta que para bom entendedor meia palavra basta. Resposta que ainda assim surge de seguida – se estivéssemos tão juntos à proximidade do coração, deixaríamos de ter a cabeça assente nos quatro sentidos e na melhor das hipóteses pensar, seria um mero exercício sazonal consoante a taquicardia emocional durante um sonho pacífico ou uma vida inteira de insónias com pontos de exclamação. Fosse

a alma a destilação pura da artéria aorta e que caberia nessa mão com dedos de guardar – esse quinto sentido indefinido que tanto implica como reduz, que tanto vibra grandiosamente como conduz à mais estreita condição humana: a retórica, sempre que sentir não é o suficiente. Não basta mesmo que para ele batendo, seja ou esteja na derradeira vontade e impulso a um pequeno passo. Que a audição não é já tão manifesta pois há pequenos ruídos nos minutos prematuros da Música. A visão não se parece já com o original que tantos olhares retrataram pois existem as marcas de riscos vincando as pálpebras. Desde que o olfacto não absorve já os cheiros e os aromas na mesma eloquência de um perfume que de intangível, fere a beleza sagrada de um sorriso mudo. Alegre e feliz. O paladar não saboreia já com o gosto proibido os frutos que apodreceram na árvore que de então era encanto. Pois bem

a um pequeno passo – o tacto. Gesto único que se vai apagando do passado como uma lâmpada que desiste para poder descansar, em si, mais densamente na escuridão das madrugadas. Mas sempre com o sol à espera, de doze em doze horas. Um todo – como eu como tu e todos nós – aguardando diligente a sua metade completa. E se uma se alimenta de paixão a outra vive de amor. Para ele batendo o quanto basta, sentir com amor feito e desfeito sentir, de paixão refeito. Talvez o maior defeito seja dividir por dois. Mas então, saberá dar quem não recebeu se pudesse, ou na metáfora o que significa ser incondicional na divergência de toda e qualquer pretensão? Não respondes, já sei que nestas alturas nada te interrompe nem irrompe a lenta e precisa dimensão das tuas palavras. Pesadas, e leves. Afinal.

Se o coração estivesse na boca ao invés de escondido na penumbra do peito encoberto. Se o pulsar fosse um pestanejar da noite e do dia, duradouro. Se fosse o coração uma sequência de sopros e bafejados burburinhos na vaga do amanhecer ou entardecer ideal sempre que alguém se cruza e se encontra. Até, se o coração espalhasse o pólen nas membranas da ave rara beijando a flor. E na ponta do bico trouxesse e levasse esses únicos gestos para dentro dessa mão com dedos de guardar, fechando-se porém no meio de luzes que adivinham entre o preto e o branco o seu demorado sentido. À espera. Como todos os que voltam logo – assim era a expectativa – e que mais tarde ou mais cedo não regressaram como prometido. Estás a ver isto? Tudo porque estavas aí e dei de caras contigo, logo agora logo hoje

que tinha vindo aqui para fazer a barba sem que me aparecesses diante ao espelho. Para remediar este ar desleixado escorrer a nu pelo lavatório com água quente, mesmo depois da lâmina afiada retomar a face de rapaz de outrora. Enfim. Já que foi assim que quiseste eu tenho dito. De rompante nem me questiono quem és. Eu sei. Os espelhos não mentem, e uma vez que aqui estamos digo-te em surdina o que tenho dito. Nada mais que isso. Nem mais uma arrebatadora bofetada para despertares, nada mais que isto: aquele que se vê dai diante de si é o mesmo. Ponto – que no avanço das horas se desvanece soturno e amiúde (…) mas antes, desliga a luz quando te fores embora.


quinta-feira, 19 de novembro de 2009

De Rerum Natura




Onze horas. Minutos outros tantos, dobrados. Dobrando as suas ramificações pelos espaços amplos da sua corrida triunfal. O tempo
passa, corre – é um puro lusitano desafiando a pátria nos seus cabelos, na crina ocre de uma patada seca. Já depois
dos sinos e dos arcanjos prematuros e dos nomes bíblicos, as horas derretem-se de dentro da cabeça e no íntimo do que é dito e é escrito. À tangente da pronúncia da gravidade. De certo,
agudos mudos toldam lábios que tocam flautas ou dedos esguios embatendo nos tambores. Uma tríade sinfonia triste. De tão longe, só por isso. Triste.
Ode ao verbo
um elogio à conjugação: melodia e drama. Melodrama, emoção
tanta
tanto muito pouco, tudo ou nada. Por além horizonte, lava-se a terra com o que cai de aquém. E desaparece
como que salpica, faz poça nas margens dos pés que marcam a molhada e húmida finitude das viagens infindas. Porque
infinito é o sopro, o solfejo ameno do cavalo e da sombra. Em liberdade
ambíguos. A galope, vagarosamente.
De fugaz a firme traço apenas giz transparente e lúcido nos limites dos seus olhos, nas fronteiras da sua exacerbada dilatação. De tão longe, só por isso.
Uma distância a mais
a trote, célere mas contido. Levando tons de verde castanho,
campos cheios de alma e espíritos que dançam. Há
ciclos que se repetem, porque são redondos círculos de um risco
angular e físico. Bolhas de ar, uma vez mais. São formas conforme o jeito
conforme a música ou o feitio. E voam
como quem se afasta, brilhantes nas asas e no sentido.
Sentir
sinto muito. Tudo
muito pouco, ou nada. Tanto, até uma oitava. Exógena. E breve.
prolongando aquilo que se transforma – matéria e substância – aquilo que se amarelece em outras cores: a paz posterior à revolta. Tão translúcida, agora
a visão fulgurante do potro pequenino que segue os passos adiante. Bem de perto,
desde sempre.
Por nunca aprender
a perder simplesmente o rasto, ele – inclinando o dorso
ou eu rasgando o céu a conta gotas. Na medida, aqui, da casa.

Meio-dia. Sob a madeira da porta, uma aresta desafiando a rigidez do corpo, a resistência e a densidade de um cerrado punho quase perdido
ecoando de vez em quando ao empalidecer certos dias, assim
o que é feito desse sonho equestre, ou que sombras são aquelas que correm como cavalos desafiantes no fundo de nós mesmos desses mesmos de nós
no fundo do mar?
- não sei dizer todas as coisas. Nem mais nem menos. Ouço
apenas os suspiros sazonais dessa mão fechada. Hermética. E
o mais que provável é ao entardecer apagarem-se as luzes da cidade. E suspirar
como quem recebe o sono diante do pão e do vinho. Ante a insónia rodeada de humildes
fantasmas que só chegam e depois partem,
quando estiver consumado. Até consumido enquanto
se rasgam retratos à lareira: o ritual tem de ser cumprido. Primeiro
a dádiva segundo Baco.
Porque é o que fazes sempre que ela não está. E ainda
te lembras de como era grande a felicidade até se tornar insignificante
adoeceu no tempo e entranhou-se numa qualquer parede
desapareceu numa manhã nebulosa e ficou essa casa testemunhando a sua falta. Ao
princípio estranhando o sossego dos jardins e o coro de vozes incessantes. O pensamento era
assim, uma arma involuntária pousada sobre a mesa. O jantar servido a frio e uma candeia gasta ao fundo do corredor. O que se passa
é o que se está a passar – dizia-lhe repetidamente. Mas do que se passou
nunca ninguém ouviu falar. E esse não dito foi escrito por linhas tortas no seu direito.
Sentenças e restos
que passaram de símbolos carregados de tanto, muito pouco, tudo ou nada
a monólogos secretos prestes a serem revelados para a sua dimensão resoluta: vinte e uma gramas levando o peso da vida. Uma promessa:
restam restos do que restou. Molduras pertencendo à cal e cartas dividindo o passado em dois ou mais fragmentos, na previsão de um futuro seco. Rasante, no âmago.
Objectos em desuso, vazio. Precedendo já a cerimónia do seu afastamento: é o quanto demora aonde nunca esteve. Mesmo recuando uns passos atrás
para me colocar a tempo, é o que falta para chegar onde nunca esteve.

Treze horas. De mãos apertadas o recomeço. Em dias de um frio como este, gelando inapelável mente. Ao ponto de onde nunca estive, ou pelo menos até
onde nunca antes foi possível estar. Mas que lugares são estes
que reclamam e clamam com a voz num tom ordeiro e ao mesmo tempo credo e chamamento? Na garganta
que vai engolindo provérbios e as ideias
na sua origem e consequente deformação. Quando, assim, já ninguém puder ouvir. Assim
perdendo a boca sem anestesia, a frio, num dia gélido e excessivo. Sobrando as demais verdades uma única vez depois da última gota evaporando-se no copo
o cheiro confundido de orvalho do ânimo e do alento carregando espelhos à superfície
a frio como já alguém o dissera, do alto da celebração. Assim
até ao derradeiro espasmo após o Amor
elementar: o prazer. E o elemento em visita, a dor. A inexistência da dor é o pleno prazer – dizia ela
houvesse ou não haja sequer a compensação e o êxtase.
- não sei dizer tudo o quanto poderia ter acontecido. Nem mais nem de menos
são janelas encerradas a este pensamento de Inverno, que ficou
a preto e branco desde os dias a frio que ameaçavam tempestades mas em que
acabava dolorosamente por não chover.

O tempo continua na lombada da sua incursão, por cavalos de sombra. ‘cause
first we feel
then we fall.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Pedro e Inês - (Ária a solo)




/ Procuro a verdade, pela qual nenhum homem jamais foi ferido. /

Marco Aurélio, Meditações



Queria saber como te chamas, diz-me o teu nome. Diz-me como te costumam chamar, por que letra começa o teu nome. Uma sílaba, apenas. Um tom ou uma entoação, só.


Eu também tenho um nome, posso dizer-to. Se quiseres. E podia ter muitos outros mas foi este que soube que era o meu quando percebi que falavam para mim, da primeira vez e última quando aguardava no corredor não sei o quê. Queres que to diga? Ou. O teu.


Sabes? É estranho não conseguir falar contigo, não chegar até ti. Não saber como me dirigir até não saber, e ponto. Não sei e tu não dizes. Eu não sei. Tu não sabes. Nós não sabemos. Nem eu nem tu. Nem o teu, eu. Nem o meu, tu. Não sabemos. De nós. Ponto.


Somos como dois desconhecidos no mesmo lugar, à mesma hora e ainda assim, não nos olhamos sequer nos olhos, não trocamos uma simples formalidade, um gesto banal, nada. Ficamos presos, como quem diz, ao espaço que demora entre dois ponteiros.


Tic tac. Na minha cabeça este som estilizado com sabor amargo. Esta espera sem esperança nenhuma. Oxalá a crença e a fé fossem apenas uma. Unidas nessa duração elástica que se alonga entre aquilo que aparece e tudo o que vai embora. Tic tac.


Penso, ou chego a pensar, o que será quando um de nós se for embora. O que fica depois desse momento. O que deixará de estar. Se eu for primeiro, contrariado e teimoso. Se tu fugires demasiado depressa. Se eu ou tu. Se nos determos.


Já imaginei, até, o que sentirás quando aquele corpo estiver amarrado a uma estátua sem se mexer. O que eu hei-de sentir na hora de agora que não há volta a dar. Sem atrasos nem distracções. Feliz acaso: recuar um instante e sorrir. Rir. E ficar assim. Para depois.


E ainda a sonhar com todas as forças possíveis o dia que nunca acabe e a noite que jamais termine. Porque é a única forma de o tempo desaparecer. Toda a noção e dimensão dEle. Para deixar de ter esta conformidade e aqui não haver mais ninguém.


Mas tudo o que conheço de ti é este intervalo que dura desde a folha branca para além das grades da minha sentença. Da tua invisibilidade. O ferro. A angústia glacial do intocável, do toque roubado ao fogo. O vento apertando algemas num adeus errante.


Acho que não percebes o que te estou a falar. A razão pela qual estou condenado. A verdade exposta ao fracasso de não me responderes. Já não importa, tento não me lembrar mais. Das minhas mãos cobertas de crime e de remorsos. Púrpuras, de cor.


O fim da inocência. Talvez seja culpado. Talvez tenha sido eu a originar o avesso de todas as coisas. Ela chamava-se I n ê s. Era jovem e era bonita. E com ela, estendida e inerte, um mundo distorcido e amarrotado. De cetim, manchado. O fim do mundo.


Como o mundo pode terminar tão inesperadamente. Basta que algo aconteça que atraiçoe tudo o quanto devore em menos de nada e, force consigo a destruição e a injustiça a crueldade e o medo, sim, o medo da culpa. Sem absolvições. Perdão.


O que quero dizer? Tento não me lembrar mais. Ao menos forjasse a memória. A meio do sono incessante quando uma borboleta láctea saísse ao entardecer e te pousasse nos ombros. Levando as sombras dos corvos.


Cem flores. Nem rosas nem jasmim.



Dois pontos:


chamo-me P e d r o, e tu?

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Três gotas de água e sal depois da escuridão



Foi, enfim, quando caíram as primeiras chuvas
que se pôde ver o fluir do rio em direcção ao mar.

T.Poeta




3.

I

Caí primeiro sobre
a vertigem facílima de um abismo

planei rente à gravidade do mundo
e acreditei - tal como sempre acredito que
me amparasses da queda nesse esplendor

intocável fora de nós e,
que mesmo ninguém pudesse pronunciar
as letras exactas do nosso nome crepuscular.

A meio da tarde à beira
de um buraco a paixão
soluçava sozinha pelos meus próprios olhos.

Procurei encontrar-te
no labirinto dos teus braços
ou por gestos indizíveis para que tu

estancasses da raiz à fonte
todas as lágrimas que perdi.

II

Era noite, entretanto
mas devo ter falhado entre - tanto
como homem como pessoa como
tudo na vida dos dias que sobram

os restos imortais da paixão pequena e grande
e do que ela prometia esboçar.

Interrogava-me apenas, quem
da viagem à tristeza quem
poderá voltar mais forte e mais feliz? Silêncio - Não obtive resposta
até ao momento combalido de pranto e de espanto.

Falhei com certeza de joelhos e cotovelos esfolados
e um sonho rasgado em sangue e suor desesperadamente.



24.

Havia um tempo em que a cidade
encolhia os ombros
escolhia o timbre
a cada um dos meus passos.

Subia e descia ruas
e terminava - quase sempre
às portas do silêncio e da desolação.

Gente por quem passava
na mais indistinta aproximação parecia
que não conhecia ninguém.

Na verdade tudo se condoía
no canto esconso de uma letargia desencantada
uma ausência difícil de suprimir.

Eram tantos lugares
em surdina sem corpo e matérias mortas
por onde as manhãs se desfaziam
sem o mínimo rumor.

- não saber de ti
era o indício de que os anjos
me haviam abandonado.



23.

Mais do que todas as coisas
que ainda te não disse

- é a esperança lambendo as feridas
no alheamento
daquilo que não contraí da tua solidão.

Porque o efectivo silêncio
da realidades dos amantes
deve ser a tomada de posse do outro
nos meandros da mesma loucura e circunstância

o lugar em simultâneo
em que duas cabeças se deitam

trocando todos os pensamentos
sem que mais seja preciso

para acabar com a insistente mudez
cuspindo em chamas a primeira palavra.

Mais ainda que todas as coisas
nunca em meus olhos escutei outro
som de tamanha raridade e beleza

como quando tu falavas
em andamentos de piano e violino
reduzindo a pó a imensidão dos desertos.

sábado, 10 de outubro de 2009

Vermelho vivo



(enquanto caem as folhas perpetua-se o anjo ancorado)



Aconchega-me

abraça-me e não fales

também me calo.

Não diremos nada senão
este abraço sentido sem identidade desconhecida

seremos a semente ateando uma vela
de cera de fio a pavio.

Conforto-te

abraço-te sem falar

não ouviremos sequer

um grito um barulho de aves
ou o gemido de um gato senão

esta vaga de paz e compadecida cumplicidade
sobre o teu ventre em que sorrio discreto
e longamente mostrando os dentes.

Porque a teu lado o mundo é isto:

a alegria ao extremo
antecedendo as vozes à distância
tangente das nossas palpitações.

domingo, 5 de julho de 2009

Deserto




Os dias demoram ao longe. Lentamente.

Sentado, espero o amanhecer no solstício
que adiará a treva. O lado obscuro da sombra

no teu rosto e no meu, a penumbra das faces
lado a lado enquanto adormeces.

Queria fechar-me, suster a respiração e dormir

um momento que fosse, calar-me de dentro e por dentro
pairando no ar como um pensamento opaco e discreto.


Voar, quem sabe, para perto do sul, hasteando no cais

a vida pintada de fresco e o coração devolvido pela corrente.


Queria alojar-me nas marcas que ficam – e do que resta,
perder-me para sempre no interior da névoa sem sobressaltos.


Mas a luz imensa dos corpos é um sono contido
que atravesso ao abandono, por palavras.


Vejo-te para além da vigília e sei que
tens o medo guardado no espírito. Já eu
tenho o medo do tempo. O tempo que já não existe.


O tempo que fui antes de ser muito só. Antes e depois de ti.

Dantes, imaginava a noite por detrás de um espelho
muito lúcido – tinha nos seus contornos umas linhas
de azul e branco e lilás. Ou lilás, e branco e azul.

Agora, nada senão umas manchas de negro nos olhos
pingando poentes de saudade e de tristeza. Ao ocaso.

«só poderei estar junto a ti se me levares contigo»

– O peso do que sinto mede-se, agora, pelo que calo.
Por dentro e de dentro, asfixio estas palavras em silêncio.

Dormes à distância – e não te dás conta
do reflexo que há durante o segredo
em que me aproximo. Aos teus ouvidos
sussurro-te: «quero que te sintas em paz».


Pouso a cabeça entre os teus cabelos
e, vou girando vagarosamente a chave
nas portas que não serei capaz de fechar
contando todos os grãos de areia, um a um.


quinta-feira, 4 de junho de 2009

À manhã






Hoje queremos voltar amanhã,
sentir como quem rasga
e pertencer como quem fica.

Hoje queremos amanhã ser a madrugada,
inclinar a lua escurecendo a alba
e transbordar o fulgor que resta.

«um dia houve nesse longo caminho»


Hoje sabemos que amanhã
é impossível reverter a água
e recorrer à terra que nos ficou.

Hoje deitamos fora os sinais,
cuspimos todos os verbos passados
e conjugamos amanhã o futuro
em nome dum tempo mais justo.

«um dia haverá que passaremos lado a lado»


Hoje fecharemos todos os sentidos,
com a certeza de quem se confunde
que o mundo amanhã não é a preto e branco.

Hoje fugiremos para lá da imensidão,
amanhã saboreando sonhos intemporais
como quem nasce uma outra vez.

Hoje ficaremos a conhecer o lado indistinto
do espelho norte, como quem abdica do sul
e se ignora aos seus próprios olhos. Amanhã.

Hoje morreremos lentamente,
levando as marcas mais íntimas
do amor amanhã pecado e proibido.

Hoje, à manhã
eles viverão felizes.

Se para sempre for
mesmo que o não seja



será o que quererão guardar.


Quem sabe se «um dia, é»


Hoje. Ou amanhã.

terça-feira, 2 de junho de 2009

Pulsação (arterial)





Indelével,
esse estado com que me pairas
no alto da tua solidão.

És um arremesso intempestivo

e seguro, estranhamente cândido
assim que o mar se afasta à tua porta.

Ouve-lo chamar-te nas noites
húmidas da tua insónia e não
fazes caso do que possa exprimir.
Há muito que esqueceste o que
uma onda era capaz de te fazer.

Antes preferias areia e sal,
agora consomes todo esse
acerbo da cabeça aos pés.

E tens marcado nas membranas
os indícios de uma viagem que
sempre desejaste, mas
que por uma razão secreta
abdicaste sempre, à última hora.


Ficas à espera.

E tantas marés partiram
e outras tantas que chegaram,
e tu esperando
como se fosse a próxima
o motivo da tua embarcação.

Enganaste-te.

Já não poderei contar quantas
foram as que queimaram a ponta

dos dedos nas velas içadas,
nem as que abriram a alma ao meio.

Quantos náufragos pressentiste,
quantos sonhos moribundos viste
ou quantas promessas socorreste
à tona de água, quase quase
inconscientes.


Há muito que também te
demoli o motivo porque
te esbatias contra as ondas,
no meio da espuma e no fim
espelhavas o fundo do oceano
que pensavas nunca desaparecer.


Enganei-me.


Um tempo depois,
já mais adulto
sentiste que o azul translúcido

se tornara negros olhos

e que não serias ousado o suficiente
para os encarar de frente.

A tua fraqueza,
foi uma duna de serpenteado
fogo e névoa.


Imaginado a colisão de ambos,
que restaria de sonhos inférteis e
esterilizados que criaras
na tua juventude?

Pouco, muito pouco
ou tanto que não me recordo -
depois de tudo.


És uma ferida móvel,
constante e circular.

Somos o velho que amacia
as tempestades vadias
com um olhar um pouco mais denso
e mais profundo que os rios -


mas que desaguando no mar
cambaleia como uma
corrente transversal,
cheia de reminiscências e ocre

talvez por isso,
rasgando cartas até ao princípio
dos dias e noites finais
em que as palavras se espalhem
líquidas e tangíveis
para a viagem impossível
ou o regresso imaginável.

Indelével,
ritmo cardíaco no interior do corpo.


Stones and flowers on the ground
We are lost and found, until.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Difícil, ad aeternum




«Queria morder-te as mãos até ao riso»



Cada uma delas, vermelhas e verdes
em postura estática sem anoitecido
movimento. Estática,
ele viu-a de longe. Ele pressentiu-a
de mais longe ainda.

Uma distância de ramo até ao chão.
Do cimo da árvore,
amadurecendo os sentidos
e fazendo contas à queda,
amparo que ele seria no momento de ela cair

na visão interdita da madrugada,
no sabor de amoras na ponta da língua e,
no fundo uma linguagem
em tom de improvisado regresso.

«Retorno à mesma casa e revejo agora
a mesma dor com que a deixámos»

E ela, deitada sobre o mármore
friamente branco, o mármore, e ela
agarrada ao seu corpo – não dizia nada.
Não se comovia nem se detinha num gesto qualquer.

Sofria, por dentro. Apenas, chorava baixo
e não dizia nada. Fingia a bucólica morte
na vida melancólica que perdera.
Calara-se ante uma quimera de perpétua ficção.

«Como as maçãs também se apodrecem
debaixo da aragem que nos engole, estreita. E difícil»

E ele pensando que era tarde
que a hora já gasta anunciava o seu desfecho.
Mas não era esse o poente de todas
as histórias, de amor. Duvidava-se.

«Nascemos de uma folha em branco»

Ela dizendo-lhe que antes deles não
havia senão um espaço escondido
entre dois campos ao entardecer.

E se um amanhecer prometia reluzir
a forma de encontro e descoberta,
o fio-de-prumo que adiavam
coincidia com o pensar léguas de utopia
à margem de sensações encobertas.

«Escrevemos essa folha em branco a partir de um recital»

Seria o que ela quereria ter dito
anos antes?
Ou o que ele não era capaz de ouvir
anos depois?

«Como as maças também apodrecem no éden,
perdidamente»


Nesses campos outrora longos e vagarosos
não morava já nenhum deles.
Deixara de haver alvorada e ventos nórdicos.
Porque da última luz, somente
o sinal dum ponteiro parado ao meio-dia.


Porque a derradeira memória
da planície rasa e concreta,
foi que nunca mais se ouvira uma badalada
ou qualquer outra réplica de vozes

«Queria morder-te o coração até que me devolvas o meu»


na eventualidade
na ausência do medo, deles.

Assim.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Entre a beleza e a desolação




Bebo a água que expulsavas do teu corpo.
Gota a gota embriagado
no teu veneno,
na vingança dos teus lábios sorridentes.
Como um largo triunfo.

Nada resta, senão
uma certa rigidez nos músculos
- porque estou tão cansado
um aspecto de vidro nos olhos e
uma apatia quase extrema se me olhasses.

Contrario-me mas aceito
que o teu corpo já não contém as mesmas
memórias. Os mesmos restos dessas lembranças
com que o conheci.
Ou até as mesmas frases que por nós foram ditas
e não mais repetidas nem proclamadas.

(evoco asas que se abrem no limite)

Às vezes, quase sem querer
apenas o gesto se repete.
Volto a esquecer-me depois de saber
que aí, nesse regresso improvisado e frágil
voltas tu também, a um tempo
em que tudo renascia perante a secura
de uma estação interminável.

- Tão quente, tão urgente. E tão distante.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Intervalo [ vermelho ]



Cada vez que falo contigo, ouço a minha voz depois da tua. E fico sempre com a

sensação de que sabes melhor aquilo que eu digo, do que aquilo que me tentas dizer:

há momentos em que me falta o fôlego. O ar e a respiração. E todos os dias eu recordo

aquela canção. Perguntas-me qual, e eu tenho de te responder novamente que é aquela

de que já te falei mas que nunca a ouvimos os dois juntos. Tu respondes-me que não te

lembras disso, enquanto que eu recordo a frase

pertenço-te

cantada no refrão várias vezes repetida. E tu continuas a não distinguir a letra da

música, porque, na verdade não podes, não percebes o que eu canto a seguir. No

entanto, e apesar de tudo, ouves-me com atenção

nessa noite, naquela que foi, nessa noite anterior em que ficámos acordados até tarde,

que te disse para olhares para mim

traz o teu corpo e os teus braços para dentro do meu peito

e tu, nessa noite que sei o quanto foi longa, paraste – suspensa nas palavras e olhaste.

Para lá. Tinhas os olhos cerrados na cor do teu olhar. E sei, porque parece ainda que foi

hoje essa noite, aquela em que te vi e ouvi


sei a visão dos teus olhos negros sobre a ideia de nos podermos tocar. E mais a

imaginação colada a essa ideia duma vontade escondida de nos tocarmos. Divago agora,

e na altura divaguei também, na tua imaginação

queria falar-te desta minha falta de fôlego que tenho com frases suaves numa linha

rápida e precisa

achas possível morrermos hoje aqui, de desejo?

queria falar-te de quando me escasseia o ar e se torna imprecisa a minha respiração. Mas

antes responde-me

achas possível o desejo matar-nos hoje e aqui?

esta noite - sim, claro. Tu sempre tão disponível para me aceitares – para ti tudo é

possível. Mas assim sendo, primeiro teria de recuperar da minha falta de fôlego e voltar

a respirar. Só assim dessa forma eu aceito. E sendo assim

houve um momento em que cheguei a pensar se não estava a ser demasiado directo

contigo. Como se a minha voz acelerada se atingisse os duzentos e dez quilómetros por

palavra. Cheguei a pensar – descontrolei-me. Talvez tivesse que abrandar. Questionei-te

queres?

e tu respondeste-me que

estou bem assim

e eu, perante ti, não pensei mais nem em mais nada. Pé no acelerador, a fundo, e o

tempo a chocar no vidro. Na minha cabeça, ouvir-te dizer que estavas bem, e a ver-te

feliz, e sem mais nenhum pensamento de nada, mas

subitamente

senti uma espiral a rondar a minha cabeça. Não fosse o pensamento, o instinto desse

instante diria que era uma das tuas canções intermináveis ou

tu, que sempre foste muito ligada a essas coisas, das melodias certeiras e repletas de

significado. Não sei. Acho que nunca entendi o que aconteceu – a trezentos e tantos

quilómetros de velocidade na minha voz acelerada

fiquei tonta de repente mas permaneci consciente. Não te disse nada, mas foi porque não

te quis preocupar. Estava a ter outra crise. Faltou-me o fôlego e se bem me conheces

preciso de tempo nessas situações para voltar ao normal. Regressar ao ar e à respiração.

Ouvi-te a falares para mim, para eu ter calma e respirar devagar e pausadamente. E

demorou uns segundos – quase um minuto meu amor – até ter a noção de que todo o teu

rosto estava triste

porquê esse sinal de tristeza?

foi a única coisa que me lembro de te dizer – para além de te ter chamado pela primeira

vez de

meu amor o que aconteceu?

estranhamente impávido e nervoso abracei-me de encontro a ti. Fi-lo discretamente para

que não te desses conta do quanto estava agitado. O meu corpo não se mexeu durante

quase um minuto, meu amor, nem a minha boca foi capaz de dizer que poderíamos ter

abrandado um pouco. Apenas eu e tu num abraço de desassossego e preocupação

misturados com um choro baixinho

e as tuas lágrimas vivas e imprevistas a escorrerem-te pela face. Apenas a minha

imobilidade numa mão sobre o teu peito inútil a não querer respirar enquanto não

recuperavas o teu precioso fôlego. Somente o olhar. Olhei-te

gosto de ver o brilho que há em ti

marcaste o movimento dos meus olhos com os teus. Paraste – suspensa nas palavras.

Olhaste para mim e disseste que gostas de me ouvir quando falo para ti. Quando tudo

isto passar, vamos escutar o silêncio um do outro, juntos. Pode ser?


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terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Interlúdio em oito compassos




Eles são dois. Antes, pelo menos. Depois disso – duas metades que não chegam a ser um. Todo.

Eles: ele e ela.

Estão enfastiados pela rotina e sufocados pela realidade: “ Para onde fugir? “ – se é que isso é possível. Porque não ficar e transformar o que acontece. Para quê desistir a meio se o desfecho nunca se vê.

” Somos capazes “. De tudo. O animal Homem (leia-se igualmente no feminino) sem limitações de ordem natural. Capazes e carentes de tudo. Pouco ou muito seriam chaves a mais nesse esvaziar contido e soberbo, nesse vazio sem identidade que a espaços os resumia em pequenos fragmentos; estilhaços que iam e vinham pela mesma medida – em cheio, violência e crime, atentando com o que poderia restar de Amor.

Mas comecemos pelo início: Nesse primeiro desafiar a linha que os dividia. A angústia com que o dever e o sentir se confundiam com a redenção de cada pecado. Ele não procurava responder. Ela que não lhe fazia as perguntas certas. Sem que ele a soubesse, a ela, perdida e friamente distante.

Era Outono. A última oportunidade de deixar para trás os seus passados e recriar novas paixões. Reacender esse rubro escarlate na face e brilho que só os olhos iludidos conseguem exprimir. Mas – e é aqui o desenvolvimento da acção – a utopia desaparece. Dá lugar a um velho rancor e ódios insuportáveis. Sem saberem o motivo, abandonam o âmago dessa vontade contígua. E como parte indistinta, também eles nesse dia começam a desaparecer. Ao contrário – imitam sem salvação aparente o rasto do inverso desse momento que há-de ficar para sempre associado ao mistério e à destruição. Já não se conhecem e desde aí há-de abrir-se uma espiral que os irá sugar e fazer adormecer quase imutáveis.

Ela deixara de se preocupar, de querer saber o que quer que lhe dissesse respeito. Nem isso, ela alimentava. Diluía sonhos como se vomitasse a dor reboliça dentro do estômago. Desfazia a esperança num eco seco e abrupta, revelava-lhe a indiferença da sua presença. Ele, sabia que se lhe fizesse o mesmo estaria a cometer homicídio não qualificado. Por palavras, dito assim – cruamente.

Ele, fantasma pelos recantos da casa, arrastava-se invisível e nulo pelo que os separava: da sala até ao quarto era um grande passo, um abismo em forma de ternura e tentação – renegada, antes esquecida à nascença que destruir a sua inocente adolescência. E no entanto, era na fase adulta em que pairavam os dois: de um lado a possibilidade de saltar até à margem do rio em que o reflexo das águas é mais azul; do outro o negrume de um oceano em tumulto desordenado. Qual de ambos restituiria justiça ante um sabor amargo e agridoce que provaram sentados à mesma mesa. Frente a frente – “ vamos? “ ou seria o final à beira do fim.

Não foram. E nesse Outono fez demasiado frio.

Ela é uma mulher sem planos, ausente de promessas. Sobrevive sozinha na projecção que esse sonho tinha na mulher antes dela. Que ela deixou de ser. Ele é um homem amargurado e que forçosamente, tenta sem realmente o alcançar, virar a página para o parágrafo seguinte - querendo com isso tocar com a ponta dos dedos na verdade entretanto mentira. Assumida.

O fracasso origina a desolação maior. E o que terá ditado o destino para tamanha reviravolta. “ O que se passa connosco? “. As árvores despiam-se copiosamente sem retorno. A nudez induzia a um marasmo sem precedentes. Surgiam os ataques e contra-ataques da palavra no seu peso magistral: não podendo lidar com a verdade, mascaramo-la de uma outra coisa – mais insípida e que tende a deixar-nos em carne viva mais tarde ou mais cedo, sem máscara e sem rosto. “ Quem somos? “.

Fazia tempo que não se cruzavam. Evitavam, aliás, estar no mesmo sítio. Esgueiravam-se de qualquer contacto sem consciência do amontoar de feridas que a alma mater rasgava dentro dos corpos. Havia no entanto, algo de transcendente na relação despedaçada deles. Haveria, com certeza, algo que de tão bem guardado durante tanto tempo ameaçava repentinamente, explodir

«A ansiedade entranha-se em tudo o que te faço e evapora-se - nada mais, nada menos - naquilo que já não significas para mim

Eles não sabiam se ainda se amavam. Nem medos nem certezas lhes abalavam o espírito cansado dessa luta desleal. Apenas partilhavam a incerteza de que poderiam acabar os seus dias nessa distância evidente. Seria esse o expoente máximo do romantismo atingido pelo lado errado da vida. Seria essa a noite da redenção ou do retrato fatídico que levariam desesperados para o cais do derradeiro afastamento.

Em que ficamos: “ vamos? “

Ela insurgindo-se do sofá, desejando lembrar uma última vez o que ele fingia e fazia de conta esquecer. Ele, de pé a olhar a cidade iluminada, esperava o momento em que a sua voz num tom de confissão, fosse o manifesto mais sincero que ela tanto procurava.

Nos segundos que antecediam essa chegada ou esse regresso – no fundo o que é uma palavra? – aquele lugar em comum dos amantes que se encontram às escondidas era um quadrado à media luz preparado para a maior das decisões. Às claras, emergindo do prolongado isolamento uma solitude em entoação melódica.

Ela inquieta, disfarçava o seu estado enfadado num lento despertar de olhos bem abertos. Fazia muito tempo – antes; quando ele - depois, rodopiando sobre o chão sabendo que não cairá, vira-se para ela e lhe diz: “ vamos “. Monstruosa a atmosfera condensada nesse ilegítimo verbo conjugado em tempo futuro. Os sacrifícios e os tormentos valeriam ao vê-la sorrir. Não importava que o mundo derramasse lágrimas ao sabê-los de partida. Não teria a menor importância que esse mesmo mundo os substituísse por memórias gastas em gerações que acabariam por jamais entender. Valeria a pena se ela sorrisse. Disposto a perder a amargura e a mágoa por ela, louco Amor, tão incondicional. Ela a doença em fase de propagação. Frente a frente, olhos nos olhos:

“ Vamos “.

Ela, num primeiro instante a contorcer-se interiormente, então como que estranhando aquele clamor e aquela linguagem sóbria, dele. Tão incisiva quanto baste, para que na base da sua face escarlate sorrisse e de olhos iludidos, brilhasse só para ele. Prazer que não se confundiria com gemidos soltos nem pequenos lamentos. Contentamento e alegria que não precisasse senão sorrir, debatendo-se com a verdade uma vez mais. Sem mentiras nem enganos, soou-lhe a imperativo categórico na utopia, ele - fronteira entre a felicidade que afronto com o temor e o confronto de não conceber perder-te, um dia, de mim.

Sorriu.

Ela a sorrir-lhe. Ele a vê-la sorrir.

Deram as mãos. Tanto tempo depois, tocaram falanges e carpos e metacarpos numa dança gestual reaprendida, palpável tanto quanto a justificação das suas vidas – ateadas no límpido burburinho que a rua da cidade testemunhou. Era mais que tudo. Era o sorrir, era o ir, sem que nada mais devesse ser dito. Sem sentirem que o gelo se desfazia em correntes líquidas,

“ vamos “.

E foram. Porque se exigia o melhor de um de outro

De mãos dadas, saltaram.