domingo, 5 de julho de 2009

Deserto




Os dias demoram ao longe. Lentamente.

Sentado, espero o amanhecer no solstício
que adiará a treva. O lado obscuro da sombra

no teu rosto e no meu, a penumbra das faces
lado a lado enquanto adormeces.

Queria fechar-me, suster a respiração e dormir

um momento que fosse, calar-me de dentro e por dentro
pairando no ar como um pensamento opaco e discreto.


Voar, quem sabe, para perto do sul, hasteando no cais

a vida pintada de fresco e o coração devolvido pela corrente.


Queria alojar-me nas marcas que ficam – e do que resta,
perder-me para sempre no interior da névoa sem sobressaltos.


Mas a luz imensa dos corpos é um sono contido
que atravesso ao abandono, por palavras.


Vejo-te para além da vigília e sei que
tens o medo guardado no espírito. Já eu
tenho o medo do tempo. O tempo que já não existe.


O tempo que fui antes de ser muito só. Antes e depois de ti.

Dantes, imaginava a noite por detrás de um espelho
muito lúcido – tinha nos seus contornos umas linhas
de azul e branco e lilás. Ou lilás, e branco e azul.

Agora, nada senão umas manchas de negro nos olhos
pingando poentes de saudade e de tristeza. Ao ocaso.

«só poderei estar junto a ti se me levares contigo»

– O peso do que sinto mede-se, agora, pelo que calo.
Por dentro e de dentro, asfixio estas palavras em silêncio.

Dormes à distância – e não te dás conta
do reflexo que há durante o segredo
em que me aproximo. Aos teus ouvidos
sussurro-te: «quero que te sintas em paz».


Pouso a cabeça entre os teus cabelos
e, vou girando vagarosamente a chave
nas portas que não serei capaz de fechar
contando todos os grãos de areia, um a um.