domingo, 11 de novembro de 2007

Carta num resto de tinta do amigo [o]culto


"[...] O poema é o teu rosto, eu, eu não sei escrever a
palavra poema, eu, eu só sei escrever o seu sentido [...]"


in A Criança em Ruínas, José Luis Peixoto

Escrevo-te, amigo, ao princípio duma manhã de Inverno. Coberto pelo frio da rua numa janela aberta para fora. De dentro, apenas este pensamento longínquo - embora denso - de que possas perceber como a temperatura e o gelo estão sempre demasiado perto.

Começo por dizer-te, amigo, porque te escrevo. Porque digo amigo em vez do teu nome. Porque o teu nome só serve para quem o chamar, e neste momento, o silêncio e a inexistência da música calam toda e qualquer descrição que tenha a ver com o barulho das vozes e das palavras. Escrevo-te, na beira do cansaço interior. Sentado sobre as rugas do meu crescimento e da forma que encontro para manter-me jovem, sem mácula, perante a dimensão da idade. Inocentemente.

Ainda és novo. Tens os medos e os tormentos próprios da tua insegurança. Quase que podia dizer-te, amigo, que te escrevo para que um dia mais tarde sejas capaz de agarrar a raiz do medo na palma das tuas mãos. Mas não. Por enquanto, por agora. Hás-de lá chegar, num dia desse futuro que presentemente desconheces.

Sim. É importante que vivas em primeiro lugar, o antes e o durante. Lembras-te? A vida tal e qual como ela é. Os riscos que envolve a descoberta, o grau de coragem e humildade necessárias para que possas futuramente, amigo, fazer como me disseste - da tua geração, melhor do que tu. Recordas-te? O mesmo seria como se daqui a uns anos estivesses a ler aos teus filhos um epílogo que escreveste outrora. Haverás de desejar que eles sejam como tu e algo mais. Trabalhores do intelecto e do inteligível Ainda melhores que tu, amigo. Sem falhas na educação que lhes quererás dar. Na noção de mundo que lhes transmitirás. A porta semi-trancada. E

um cigarro acende-se e o fumo deambula perdido entre quatro paredes. Reconheço-te. Sei que se te perguntasse alguma vez - Qual é a cor da Terra? - possivelmente irias abrir o teu bloco de capa preta, e com linhas azuis irias escrever - Que textura tem um fio de cabelo? De todos aqueles que deixaste cair nas mulheres que conheceste, nas que amaste há muito e nas que ficaram para trás do caminho. Hoje, amigo, Inverno em que caminhas à procura dos passos em que foste esquecido. E eu te memorizo. Os erros da infância e da adolescência que matavas, quase, num gesto físico de arremesso de músculos e raiva. Todas as experiências em que te envolveste, essas, batalhas dum corpo frágil e rebuscado em direçcão à sapiência - o mais possível.

Escrevo-te, amigo, e poderia dizer que sei quem és e te conheço. Mas o que haverá para encobrir? Que necessidade tem a poesia de referir o mistério, ao invés da crueza duma só palavra. Só - de solidão, por exemplo. Dó, de música. Um aglomerado de acordes acústicos e eléctricos, num conjunto de vozes e gravidade sonora. O metal. Tal como o alumínio daquilo que expressas. A ferrugem de fonogramas que compões dentro da tua recôndita parte. Infimamente, como se pretendesses escrever na posteridade que o teu processo mental são letras que se corroem e desfazem noutras tantas que renascem, por outras palavras. Serás o sábio sem sabedoria? Ou a sabedoria do não-sapiente? Serás o bicho dos pensamentos e reflexões, escondido por entre a sombra? Porque vives na sombra de dentro de ti. Porque a tua sombra e tu são uma só pessoa. Alimento e simbiose. Um ser regente de actos sinceros e movidos a impulsos de te libertares daquilo que nem tu fazes ideia.
Pergunto-me, abstracto, o que é a vertigem. Estar perto de resvalar pelo que a seu tempo deverá ser revelado, e no entanto, perder as forças para segurar a hipótese de morrer sem levar da vida o sabor do passado. Acharás que cada um enlouquece à sua medida e à sua velocidade. Talvez, penses que o que faz do rosto uma imagem seja apenas o seu aparente contorno. O conteúdo, revejo preciso, das conversas que não tinhas com ninguém. Dos diálogos metafísicos em que dizias do teu tom aquilo que queres e te apetece. Tu, amigo, que prolongas a autenticidade do real face ao imaginário.
Tu, que ilusoriamente desacreditas da Humanidade na sua extenção fútil de um marxismo moderno na era do imediato. É a tua convicção que lhe dá força: Sem que nada atravesse a pele e chegue ao sangue, acrescentarias.

Eu, amigo, que te escrevo para concordar contigo que os espelhos também mentem. Que há mentiras que são corações esculpidos num momento de ódio. Sem amor. Completamente vazios.
O que terá, então, a mentira a mais que a verdade? O simples facto de ser astuta e um sinal de uma retórica pungente que trespassa todo e qualquer vestígio do que realmente significa. Eu, que me limito a escrever-te, amigo, em forma de desabafo, de cordial compreensão num impiedoso fôlego - um suspiro, digamos - inconscientemente consciente do alheamento real.
Eu, amigo, que torno a concordar contigo nas solarengas maldições que tardam em desaparecer cada noite e madrugada que resta. Ela está sempre sentada na cama, em espera, de pé em frente das paredes brancas. Sobre ti, a carregar a vingança de seres poeta e pensador - em simultâneo. Ouviste bem: poeta e pensador. Toma atenção - é o fardo que te acompanhará sempre que avançares ou recuares em qualquer que seja o seu sentido. Ainda que renegues ou rejeites os rótulos e as identidades sucintamente banais, neste caso, é o peso da tua existência. Aquilo em que te tornarás, penso, em breve e que jamais se separará de ti. Amigo, escrevo-te na razão inglória e espero que para ti, não insuficente, que venhas num futuro de hoje mesmo, ou um dia depois, a ser "poeta" maior. Ou melhor, a sê-lo continuamente do tamanho daquilo que vês.
(A)Nota que a vida é um limite entre o que se faz e tudo o que nunca provaremos. E tu, tão certo de que a vida só se vive uma vez, o que podes explicar da amargura? Do beijo a azedume daquela que não apagas da memória e que há muito tempo lhe tiveste vontade de dizer olhos nos olhos que lamentas. Mais por ela e não por ti, até porque a capacidade de amares novamente é a mesma, desproporcional ao que ela nunca mais terá. Com ninguém. Houvesse outra hipótese para ela te aceitar. Nunca mais.

Espero que não leves a mal, mas - quero perguntar-te: de que forma nos tornamos humanos e desumanos? Tenho uma lembrança de me teres falado disso num texto que já escreveras. Apenas não sei que resposta representa a fidelidade do que me vou tornando. Estarei errado ou poderás tu esclarecer-me?
Escrevo, amigo, para me confessar: na simplicidade de que tudo o que acontece à minha volta, retorna do mesmo modo que a espuma de uma onda se absorve na areia mas fará o mesmo trajecto noutro mar. Para mim, é este o primeiro pensamento que me vem à cabeça quando reflicto e me conflito entre o antes e o durante deste momento. A pendência com que se suspendem as horas na escrita esvaída e corrente, é a minha incidência e reprodução de me reduzir perante o que me ensinas. E ensinaste.
E no entanto, bate-me na consciência a robustez de cada esperança elevada que sossego neste monólogo. Escrever-te-ia, amigo, de um outro formato ou configuração este proémio-poema, acaso o sonho e a ansiedade de que me ouças se dessem ao sacrifício de se unir. Seria mais fácil poder auscultar num instante de paz, que os meus dedos memorizam as coisas que sabes melhor do que alguém. Até do que eu próprio.

Dou voltas e mais voltas à massa encefálica que me corrige o devaneio, e falo-te do agradecimento e do que encerra a minha estadia terrena. Os meus arrependimentos, receios e variações, as divagações, ainda, os assuntos delicados do que se emerge diariamente. Deves calcular que não preciso de te escrever, amigo:
Obrigado.
Mas reforço o ideal de que serás um viajante do norte e do sul, nos meandros do percurso que traças com a absorção do este e do oeste. A poente, todos os pontos do eixo cardinal da bússola que te entregaram à nascença. E complemento com a nobre agitação que transbordas. És um sopro inacabado. Um livro em aberto sem final à vista. Tu, que ainda novo, sentiste a tua vida do avesso e recomeçaste. Derrubaste dogmas e paradigmas. Reconstruiste uma parte da história através de encontros e desencontros. As tuas paixões que terminaram precoces e os amores entregues que tristemente foram uma desilusão. Irreversíveis. Lembras-te de cada face turva que abraçaste ou de cada silêncio que calaste? Afinal, para ti o amor é quanto baste. É por isso que te recolhes e te remetes a redigir sozinho. À margem.

Escrevo-te, amigo, de parte incerta no espaço mas ciente de que passarão muitas gerações a seguir à nossa, e que mesmo depois de termos fugido haverá quem perpetue o pecado e a perfeição, as marcas que hão de perecer quase no fim. Muitos serão os segredos deixados nos corpos dos homens e das mulheres que se cruzarem numa esquina, numa chávena de café. E sem películas se hão de materializar em nostalgia entranhada nos dias de Inverno, como este, em que o sol espreita as nuvens, tangentes. Já viste como a poesia é uma encenação pura da mente humana? - a essência de tudo o que é verdade.

O poema. A epiderme que o envolve. O toque que antecede e precede o tacto. Já reparaste na complexidade que o poema decifra? Imagino se estivesses a ler o texto ao contrário. Tentando ajeitar cada vocábulo no seu sentido primordial, independente da ordem e do caos com que foi escrito. Irias testar a espessura da carga do poema, revitalizando frases e pontuação, nessa tua postura de ouvinte curioso em que cerras o olhar e fixamente observas o centro do organismo poético. Por todas as vezes que paciente me escutavas, atrás de cada cigarro sucumbindo demoradamente.

Pelos conselhos, pelas frustrações indulgentes a descerem até aos ossos. Pelos recíprocos ecos que compunham a tua voz. A sobreposição à minha voz. A diligência e a solidariedade. O saber.
Escrevo-te, amigo, já sem palavras. Sobra-me o vácuo que se adivinha no brilho do vidro, verticalmente colocado para o exterior. Superfície que destapa o âmago, as vísceras e a profundidade do lado oculto das nossas locuções. Mensagem transversal.
Páro. Findo. Extingo a combustão com um semblante por uma tentativa. A de te escrever, amigo, para que não abandones os objectos e as coisas irrealizáveis. E não sejas abandonado, igualmente, aos sonhos concretizáveis. Para te confiar. Guia-te pela magia do inevitável. Perfura, rompe e transpõe o pavor das folhas em branco que acredito que não deixarás de amar.
Amigo.

Numa última remanescência encoberta de pó. A tinta negra.

1 comentário:

Anónimo disse...

é o teu consciente a falar á consciencia do teu ser...és um livro aberto que se fecha sobre si msm e k desabafa sob a forma de palavras escritas.Por vezes tb têm de ser ditas.So existe solidao se a desejarmos...mas a vdd é o o mundo é feito de pessoas de culturas de personalidades e de palavras...nunca estamos sós.bjito=)