quinta-feira, 6 de setembro de 2007

Verba volant, scripta manent



"As palavras esvoaçam, os escritos permanecem".


Ela tinha-lhe dito: Não me perguntes onde estive.

E saía sempre de casa a uma velocidade impossível de ele a acompanhar. Antes ficava, impávido no sofá que compararam os dois quando se mudaram para aquela casa, de cigarro na mão e de olhos vazios. O estrondo da porta era o mesmo desde que se tornaram dois desconhecidos debaixo do mesmo tecto.

Mas nem sempre foi assim.
Quando se conheceram, eram os mais apaixonados do mundo. Traçavam sonhos e projectos de futuro, com tal força, que dir-se-ia que não se haveriam nunca de deixar de ser um e outro. Tinham gravado no rosto as mesmas palavras e nos gestos os mesmos movimentos impulsionados a dois. Eram um, apenas. E os dias, para eles, eram de uma cadência só ao alcance dos que se permitem sonhar.

Depois, o tempo revelou-se. As noites começaram a tornar-se mais cinzentas. Conversas antigas disparavam raiva e amor-ódio pelos cantos do quarto, da sala, à hora de jantarem juntos - que foi sendo cada vez mais raro - até que um dia ele lhe perguntou:

Queres ir-te embora?

Ela não respondeu. Não lhe deu nehuma conclusão concreta. Fugiu à espada e deslizando parede abaixo, chorou.

Ela não chorava. Parecia que não haviam lágrimas naquele corpo, fosse o que fosse. Acontece o que acontecesse. E ele sabia que isso não era insensibilidade dela, mas a fórmula que encontrara para estar em defesa do seu íntimo lugar de sentimentos roubados e de uma inocência perdida. Foi essa a característica que o levou a aproximar-se e a tratá-la como mulher. Foi o modo como se chegou perto sem quase lhe tocar que fez com que ela se apaixonasse. E nem no primeiro toque ela chorou. Por seu lado, ele sorriu.

As vidas deles sempre foram marcadas por muitas mudanças. E naquele preciso instante em que ele a confrontou, uma mudança ocorreu. A sua voz ficara presa na garganta e por mais que quisesse ter mentido, e dizer-lhe que sim, não foi capaz. E imediatamente ele tentou abraçá-la, perdoar-lhe os últimos esboços a negro da sua vida, e aceitá-la como fizera dantes. Ela retraiu-lhe o afecto, desculpou-se pela corrosão a que estavam sujeitos e pediu-lhe que mudasse. Que voltasse a ser o rapaz que havia conhecido a anos-luz daquele abafamento em que se encontravam. Porque ele a fizera sofrer desde então, e por consequência ela não queria assumir a culpa e a derrota sozinha.

Ambos se perderam. Ambos apostaram e pouco ou nada lhes restou. A vida é demasiado inteligente nestas coisas. Ela disse-lhe então:

Não me perguntes onde estive.

Ele, cansado e vencido por fora, debatia-se por dentro. Todos os dias a via arranjar-se e desaparecer num impulso, para lá do abrigo que ambos construíram. Sabia que aquela já não era a sua mulher. Pressentia que já não lhe pertencia como homem. Como amigo. Nem tão somente, seu companheiro de outras batalhas. Todos os dias sentia-se cada vez mais sem armas para resistir. Seria necessário?

Não me perguntes onde estive. Cada palavra um arremesso no centro do estômago. O estrondo da porta a fechar-se sempre igual, o som agudo e grave a entoarem-lhe nos vestígios de uma memória pouco clara e nítida.

Ultimamente sobrevia na insegurança da noite. Á espreita dum deslize qualquer que justificasse que ambos não estava preparados para partir. Sem nehuma esperança. E foi numa dessas madrugadas, insane, que rumou ao carro e acelerou para longe. Queria afastar-se do local do crime para sentir a necessidade de voltar mais tarde. Queria a saudade a nascer outra vez.

Chegou ao destino improvável em meros minutos. Saiu e encostou-se à pedra do pontão. Era inverno e ele acendeu uma luz no frio. Fumou todo o seu passado recente naquele cigarro. Contraiu os pulmões para dentro como se preferisse renascer no ar respirado. De mãos nos bolsos e em silêncio arranjara uma derradeira fé de ir ter com ela e recomeçar.

Ela demorou menos que o habitual. Apesar de todo o ritual e de uma liberdade imposta por si mesma, sentia-se estranha. O amor reclama sempre a sua presenças aos amantes. Não aguentou o estar rodeada de pessoas, as conversas circunstanciais e o cenário colorido de bares e locais que para ela, nessa noite, animação alguma lhe tinham causado. Deu por si a pensar nele. O quão farta que estava de arrastar uma possível ruptura. Que não queria, no fundo. Porque não estava preparada. Porque não queria.

Chamou um táxi e indicou a morada. Pediu ao motorista para ser rápido. Para o que desse e viesse, tinha uma súbita vontade de se abrigar perto dele. Nos seus braços.

Chegou. Pagou a viagem, e numa correria de acções subiu ao décimo andar de elevador, pegou nas chaves e rodando a nostalgia invulgar em si, entrou em casa.

Não viu ninguém. As luzes apagadas. O cheiro a incenso no corredor e uma apatia e uma calma invulgares para aquela hora. Revistou o quarto, não o viu.
Foi sentar-se então, no sofá que compraram os dois quando se mudaram para aquele apartamento. Exausta, deixou-se ficar.

Por volta das quatro da manhã, ele abandona o ambiente marítimo da sua reflexão. Com o seu pensamento nela, faz-se à estrada no único objectivo de a contemplar. De a ter para si como dantes. Os olhos no risco branco da estrada e o velocímetro a sobejar no limite.

Perto do fim do trajecto, um sinal amarelo a cair para o vermelho. Esforçou um pouco mais o acelerador e imprudente, ultrapassou. Um outro carro atravessou-se no caminho e o choque foi inevitável. A buzina ainda soou, mas foi insuficinte. A colisão foi demasiado forte e o impacto tal, que num anterior rasgo de lucidez apenas foi capaz de encobrir a cabeça por entre os braços

à medida que a luz do faróis do outro veículo se desfizeram sobre a sua fragilidade. Fatal.
Assim que a ambulância chegou, deu por encontradas duas vítimas num acidente de viação. Trataram da papelada inerente aos factos, deixando para trás os destroços de duas vidas. O azul intermitente.

Ela acordara sobressaltada. Continuava estranha e só. Acendeu o candeeiro junto à mesa, e reparou numa folha de papel deixada sob uma vela. O telefone começa a tocar e ela vê-se impedida de satisfazer a curiosidade que acabava de notar. Ao atender, percebe que não conhece aquela voz. Perguntam-lhe o nome e num tom formal transmitem-lhe a má notícia.

Chora, pela terceira vez em toda a sua existência, deixando escapar o auscultador por entre as mãos. Trémule, dirige-se à mesa e pegando na folha de papel lê
o que estava escrito:

Fui esquecer-me de tudo o que foi feito e foi dito. Fui para me recordar que podemos voltar a ser o que éramos. Se entretanto chegares, espera por mim.
Não te preocupes, que eu já volto.
Amo-te.

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