domingo, 4 de março de 2012

o estranho caso de Eros e Psique


 (ou curiosamente, que de estranho nada tem)


como poderiam saber se não tivessem existido? houve um lugar, um acaso nas horas ocasionais de um dia [in]finito, em que se cruzaram. por linhas rectas e convergentes, note-se, num ponto comum: conduziram a fala para os antípodas da surdez generalizada, as palavras até aos confins do ouvido que escuta e segrega os ecos e as vozes numa inata correspondência, os poucos gestos em olhares de delicadeza como quem se descobre deixando-se descobrir; dificilmente um só ponto comum chegaria para quem conhece de que matéria é feita o firmamento em noites estelares. como poderiam eles saber se não existissem? a exemplo, numa varanda velha, há um vaso com flores murchas, um animal doente, roupas esquecidas num estendal gasto – e imagine-se, que triste, um vazio acomodado que nem o vidro baço deixa ver. por outro lado, não muito distante, há uma janela de se observar por dentro e por fora. não tem varanda, mas compensa-se por ser maior que algumas irrelevantes fachadas de microscópio. tem cortinas de ar e de vento, abre-se à primavera quando o sol a invade, e mesmo quando cai a chuva pede um pouco mais, que entre e se banhe. que feliz, imagino. que felizes, quero crer, eles que sabendo da fragilidade do mundo que gira e gira, reforçaram o elo em doar-se, de maneira original e de forma incontida. [algures, a lenda enlaça o mito e o mito desata a semear frutos na árvore da plenitude]. e como posso eu saber? porque eles sabem. e não me estranha, não estranho sequer que existam. sempre que os vejo e revejo, a ele Eros, o ímpeto e os impulsos, a ela Psique, serenidade e ambígua, lembro-me [em transparente reflexo] que ser-se dois não é ser-se mais que a fronte e o reverso da mesma coisa. é ser-se o rosto por inteiro, da nuca até às pálpebras, o corpo por inteiro, da espinha à carne, da cabeça aos pés e dos pés à cabeça. é não ser-se outro, de outrem para ninguém. porque a esperança está em não ser-se menos sem tentar-se a ser mais do que isso. porque sim. e em dose redobrada. porque sentir não é apenas necessário, é vital. porque foi o sentido de sentir que o tornou Homem, que a fez Mulher. e porque a crú, esta história sabe melhor. porque é bela a cumplicidade que fica, da beleza em falar a verdade. Assim é. Assim seja.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

relembrança (ou a facilidade do irrepetível)




a memória bateu-lhe à porta com uma mala cheia de recordações. e pediu-lhe se podia passar aquela noite, ali, na sua companhia. tinha de parar um pouco antes de continuar, explicou. o pedido foi aceite, mais ou menos de forma pacífica. entra, fica como se já aqui tivesses estado – disse. a porta voltou ao seu lugar, o ambiente voltou ao que estava. tenho ideia de cá ter vindo, há muito tempo. e tu? surpreendentemente, a visita assumia o papel de protagonista, na figura do anfitrião transformada em figurante. o que trazes nessa mala? por momentos, o ar fez-se solúvel. as palavras fizeram-se novelos e a resposta saiu-lhe num travo de retórica delicada. lembro-me  de tudo. do lenço axadrezado que lhe cobria o pescoço, da camisola de lã cinzenta com as mangas que sobressaiam debaixo do casaco preto. da expressão de curiosidade que havia no fundo de dentro daqueles olhos convidativos. das suas mãos cuidadosas, da grandeza das poucas perguntas que fazia quando se conheceram. ou da franja que lhe deslizava numa das margens da face, oculto o olhar directo e furtivo, num misto de atrevimento e discrição. suspirou e calou-se, sem saber se tinha acertado correctamente no que acabara de dizer. recuou um pouco atrás mas sem poder pensar muito nisso, já que a memória desferira o derradeiro golpe. falta-te uma coisa, lembras-te? foi então que o tanto que tinha para dizer, se contraiu. foram devolvidos os pés ao chão, e num momento, a comparação mostrou-se inevitável: a mesma curva dos baloiços em que te vi brincar é quase a mesma, de muito parecida, com que me revelas na tua alegria. nisto, tudo se acomodou. esboçou uma reacção feliz, das que se cumprem com lugares comuns. e descansou.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

claro escuro (ou o luar)




sexta feira, em nocturna passagem. amanheceu escureceu e anoiteceu. fenómeno casual como o tempo que avança. algures há uma casa, alguém se recolhe, encolhe-se sob o calor da cama em que dormiu o dia inteiro. e escolhe um filme que adie a vontade de se fechar na sua concha acolchoada, para até depois. entretanto, num outro ponto incidental, há um coração onde é sempre madrugada. por maior, um único pormenor: na vida que se habituou a viver é a transparência que lhe ata e desata todos os nós, sem surpresas sem sustos sem incógnitas. a semelhança está, ocasionalmente, nas contracções que demora até se expandir,  até depois. entre uma coisa e outra, o tempo avançou de um corpo ao outro sem tocar nenhum deles. por momentos, os olhos colidem no mesmo movimento. mas só isso, algures entre o silêncio e a vigília. eles estão exactamente posicionados sobre o lado esquerdo do sonho, sonho esse que suporta tudo aquilo que importa. algures, esse coração sabe de alguém e alguém sente esse coração. por fim, são os gestos que repousam, deitados. até para depois, sábado. ou até mesmo, até para depois disso.