quarta-feira, 20 de junho de 2012

Abyssus abyssum invocat [in Tempus Fugit]




um instante, um momento, um segundo. quando tudo acontece nesse curto espaço de tempo e a única coisa que se conhece é a duração de uma saudade, de uma falta ou de um súbita sensação que se desenrola em outras infindas manifestações que provêm desse terço de tempo que não se possui. é no tempo que vai que sobejamos o quanto esse tempo nos aproxima. que desejamos não nos afastar, que mantemos os braços na posição de abraço e as mãos pairam no ar vago da espera. é a persistência desse véu que nos cobre, que nos despe e nos destapa, primeiro tu só depois eu. e tantas vezes sou eu o último a ver a tua pele indefesa, cheia de pontinhos e de claridade. um segundo, um momento, um instante. no tempo a ficar-te na face logo quando acordas ainda o amanhecer é um hóspede a chegar da noite. carregado de aditivos e somas estreitas, entre a horizontalidade em que o corpo que escolheste repousa e enquanto tu verticalizas o olhar e o silêncio. as respirações fundem-se para se confundir e os números no despertador avançam ao de leve consoante as incontidas carícias que resultam num despertar sem tempestades. longe vão os dias de temporais, as tardes bucólicas no amorfo sentido da vida ou até mesmo, as rotinas forjando o tédio e os fins sempre iguais. mas o tempo adianta-se e ao repararmos nele não se sabe bem quanto foi que passou, a matemática troca-nos a intuição e o que parece ser, já o é em continuidade sem limitações. o anjo liberta-se para se atar. vagarosamente, um punhado de vespertinas locuções maneja as bocas unidas, os lábios formulam as certezas habitadas no ocaso do quotidiano e o novelo estende-se até à proximidade mais justa e mais certeira. ateiam-se as fagulhas inerentes à vulnerabilidade perante quem se quer, acima de tudo, se deseja como quem agradece. louva e honra os nós desatados da insegurança. num instante, somos dois, num momento tomamos um do outro, segundo a segundo, a palavra a vanidade ou o mel destilado no espírito. e muito maior que o esperado, és de criar doçura tal qual as romãs. em raiz, nidificam-te no modo como vives. no verdadeiro e doce modo de me viveres. a eternidade é deixar-te ser quem és, forte e nuance de espanto. comigo, enfim, dobrado sobre a vertigem de morar no único lugar do mundo, encantado, onde me permites ser deslumbrado. num abrir-te e fechar-me de olhos. aquieto-me, intemporal. e sei-te assim do anjo sem abandono.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

um, dois, um (ou a plenitude)



ela tem muitas dentro de si. ela é só uma, mas com muito mais do que a aparência alta mistifica, em que se constitui. por vezes é um espelho impecavelmente híbrido, seguro e vaporoso. os cabelos adornando a face macia, a base na camada mais fina da pele, o rosto composto num nariz particular. outras vezes, quando brevemente insegura tem um ar mais sério, ainda que sedutora e tranquila no mesmo corpo e na mesma medida. ela veste-se de tramas muito profundas, o fácil não a estimula e o que é comum não a faz vibrar. é sim, o desafio que a move e lhe abre os ângulos que se abrem ao meio permitindo-a abraçar-se com a sua própria sombra. ela é o seu sorrir. é o sorriso. cedo, na presente estação, é encarada com a dedicação instruída por vê-la, ensina ao olhar os olhos cálidos e numa demonstração de valor acrescentado, ela vale todas as sete vidas que tem. e só a vida carece de ser somada numa vida inteira. porque há algo nela, que não chega a ser ausência. habita no que sustém e no que acolhe de peito aberto. convida a oração através das horas escuras de onde vem a luz, e aperta com muita força a bonita cruz que mostra a essência de não parecer deste mundo, nem mesmo quando sofre o que mais ninguém sofre. ela retoca-se como quem cuida de uma imagem rara. diga-se, aquela que é captada com lentes de cor. e depois corre para a rua numa pressa ritmada de confiança e embalo. ela desdobra-se em ser um todo e em alcançar tudo. e sorri, que nem uma criança. é o sorriso, ela é o sorriso. cedo, caminha pelos seus pés repletos de exactidão. e sabe que nunca é tarde para agradecer. ao fim do dia sabe também que só sabe voltar. do amor, consta que deixou-se tatuar numa mão cheia de carícias que sabem a festa. ela, na solenidade fiel ao tacto e no véu a descoberto do toque. em que de manhã é o sol. em que de noite é uma estrela. sempre alta, sempre ao luar.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

a queda (ou o balanço tomado de braços abertos)




naquele instante, começara a chover. primeiro, umas gotas enviesadas e estreitas lentamente. depois, mais intensas como se fossem neve a desfazer-se de precipitação. muito lívidas, incoloridas. há no ar uma camada de pó que se levanta, e ela seguindo-lhe o movimento em extensão e sempre a correr no limite que o tempo impõe, abre um guarda-chuva. cuidadosa, atravessa para o lado de lá do sítio em que estava e é íngreme, agora, a rua que tem de subir. muda de passeio ao longe, na terceira passadeira, e desaparece. do lugar onde alguém a observa – e sabe quem ela é – uma voz decifra a matéria de que são feitos os romantismos nos dias de hoje. à antiga e fora de moda.  menina que se custa, à vez, quando todos os outros riem por uma irracionalidade qualquer. menina que se alegra em si mesma e é feliz, mesmo quando os outros todos não compreendem nem como nem porquê. essa mesma menina, que desaba convenções pela curiosidade inata que alimenta. consigo. por tudo e em tudo. menina que derruba preconceitos a preceito de palavras tão suas, feitas por conta peso e medida. menina que sabe ser crescida na extensão da pequenina que quando não conhece, arrisca e quer. que não se contenta nem se satisfaz com mediocridades, que afirma «o amor não é banal» com a mesma naturalidade com que atenta o mundo através de um olhar mais denso e sem pele. mesmo sem asas, tendo-as. mesmo debaixo da pele, sobrevoando o tacto e o contacto. aquele que a observa nos olhares que lhe lança – é ele, seguro e crente – visa a admiração que lhe tem, ali parado na transição para a bonança depois da tempestade. inesquecido por pontos de fuga e perspectivas luminosas, baixa a rouquidão de homem como se domasse o tom das palavras de seda que acabara de dizer. pela menina pequena e grande. pela mulher em que esbarra, e num instante, baixa e levanta a cabeça. tem uma feição desassombrada e simbólica: sem hesitações, o soco é uma interrogação quando questionado “se já tinha visto alguém como tal”. aguardo brevemente o repto quando uma nuvem passa para mostrar que o mundo é um fio de água sem interregnos. respondo que nunca vi nada assim. ainda com a vontade de me explicar que não poderia. ele apartou-se e não reparei. ela fez o mesmo e dei-me conta de que a cidade flutua naquele perfil que mostra o quanto vale uma aparição. chove timidamente, de novo, e agora quem fica a ver a noite ganhar asas sou eu. a tarde inaugura a eternidade, o nocturno. guardo o que disse e não neguei. e ao voltar, no regresso, deixo-me atingir por uma mão que me guia. um membro que não precisa de ser notado para se denotar. percebo, enfim, que o amor absoluto tanto existe na extinção da sombra como no espreguiçar de um fogo felino. o amor puro inviabiliza a negação, aceita-se e enjeita-se no revés das feridas. madrugada dentro, um poema para uso doméstico cobre o silêncio, a paz e a aurora cheia de graça. para o que há-de vir - era uma vez uma menina e um menino. a escreverem sílabas com letras, de rosas jasmim e de alecrim. ainda a primavera, ainda a chegada e a partida. ainda a casa, sempre.