quinta-feira, 4 de junho de 2009

À manhã






Hoje queremos voltar amanhã,
sentir como quem rasga
e pertencer como quem fica.

Hoje queremos amanhã ser a madrugada,
inclinar a lua escurecendo a alba
e transbordar o fulgor que resta.

«um dia houve nesse longo caminho»


Hoje sabemos que amanhã
é impossível reverter a água
e recorrer à terra que nos ficou.

Hoje deitamos fora os sinais,
cuspimos todos os verbos passados
e conjugamos amanhã o futuro
em nome dum tempo mais justo.

«um dia haverá que passaremos lado a lado»


Hoje fecharemos todos os sentidos,
com a certeza de quem se confunde
que o mundo amanhã não é a preto e branco.

Hoje fugiremos para lá da imensidão,
amanhã saboreando sonhos intemporais
como quem nasce uma outra vez.

Hoje ficaremos a conhecer o lado indistinto
do espelho norte, como quem abdica do sul
e se ignora aos seus próprios olhos. Amanhã.

Hoje morreremos lentamente,
levando as marcas mais íntimas
do amor amanhã pecado e proibido.

Hoje, à manhã
eles viverão felizes.

Se para sempre for
mesmo que o não seja



será o que quererão guardar.


Quem sabe se «um dia, é»


Hoje. Ou amanhã.

terça-feira, 2 de junho de 2009

Pulsação (arterial)





Indelével,
esse estado com que me pairas
no alto da tua solidão.

És um arremesso intempestivo

e seguro, estranhamente cândido
assim que o mar se afasta à tua porta.

Ouve-lo chamar-te nas noites
húmidas da tua insónia e não
fazes caso do que possa exprimir.
Há muito que esqueceste o que
uma onda era capaz de te fazer.

Antes preferias areia e sal,
agora consomes todo esse
acerbo da cabeça aos pés.

E tens marcado nas membranas
os indícios de uma viagem que
sempre desejaste, mas
que por uma razão secreta
abdicaste sempre, à última hora.


Ficas à espera.

E tantas marés partiram
e outras tantas que chegaram,
e tu esperando
como se fosse a próxima
o motivo da tua embarcação.

Enganaste-te.

Já não poderei contar quantas
foram as que queimaram a ponta

dos dedos nas velas içadas,
nem as que abriram a alma ao meio.

Quantos náufragos pressentiste,
quantos sonhos moribundos viste
ou quantas promessas socorreste
à tona de água, quase quase
inconscientes.


Há muito que também te
demoli o motivo porque
te esbatias contra as ondas,
no meio da espuma e no fim
espelhavas o fundo do oceano
que pensavas nunca desaparecer.


Enganei-me.


Um tempo depois,
já mais adulto
sentiste que o azul translúcido

se tornara negros olhos

e que não serias ousado o suficiente
para os encarar de frente.

A tua fraqueza,
foi uma duna de serpenteado
fogo e névoa.


Imaginado a colisão de ambos,
que restaria de sonhos inférteis e
esterilizados que criaras
na tua juventude?

Pouco, muito pouco
ou tanto que não me recordo -
depois de tudo.


És uma ferida móvel,
constante e circular.

Somos o velho que amacia
as tempestades vadias
com um olhar um pouco mais denso
e mais profundo que os rios -


mas que desaguando no mar
cambaleia como uma
corrente transversal,
cheia de reminiscências e ocre

talvez por isso,
rasgando cartas até ao princípio
dos dias e noites finais
em que as palavras se espalhem
líquidas e tangíveis
para a viagem impossível
ou o regresso imaginável.

Indelével,
ritmo cardíaco no interior do corpo.


Stones and flowers on the ground
We are lost and found, until.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Difícil, ad aeternum




«Queria morder-te as mãos até ao riso»



Cada uma delas, vermelhas e verdes
em postura estática sem anoitecido
movimento. Estática,
ele viu-a de longe. Ele pressentiu-a
de mais longe ainda.

Uma distância de ramo até ao chão.
Do cimo da árvore,
amadurecendo os sentidos
e fazendo contas à queda,
amparo que ele seria no momento de ela cair

na visão interdita da madrugada,
no sabor de amoras na ponta da língua e,
no fundo uma linguagem
em tom de improvisado regresso.

«Retorno à mesma casa e revejo agora
a mesma dor com que a deixámos»

E ela, deitada sobre o mármore
friamente branco, o mármore, e ela
agarrada ao seu corpo – não dizia nada.
Não se comovia nem se detinha num gesto qualquer.

Sofria, por dentro. Apenas, chorava baixo
e não dizia nada. Fingia a bucólica morte
na vida melancólica que perdera.
Calara-se ante uma quimera de perpétua ficção.

«Como as maçãs também se apodrecem
debaixo da aragem que nos engole, estreita. E difícil»

E ele pensando que era tarde
que a hora já gasta anunciava o seu desfecho.
Mas não era esse o poente de todas
as histórias, de amor. Duvidava-se.

«Nascemos de uma folha em branco»

Ela dizendo-lhe que antes deles não
havia senão um espaço escondido
entre dois campos ao entardecer.

E se um amanhecer prometia reluzir
a forma de encontro e descoberta,
o fio-de-prumo que adiavam
coincidia com o pensar léguas de utopia
à margem de sensações encobertas.

«Escrevemos essa folha em branco a partir de um recital»

Seria o que ela quereria ter dito
anos antes?
Ou o que ele não era capaz de ouvir
anos depois?

«Como as maças também apodrecem no éden,
perdidamente»


Nesses campos outrora longos e vagarosos
não morava já nenhum deles.
Deixara de haver alvorada e ventos nórdicos.
Porque da última luz, somente
o sinal dum ponteiro parado ao meio-dia.


Porque a derradeira memória
da planície rasa e concreta,
foi que nunca mais se ouvira uma badalada
ou qualquer outra réplica de vozes

«Queria morder-te o coração até que me devolvas o meu»


na eventualidade
na ausência do medo, deles.

Assim.