quinta-feira, 6 de março de 2008

Fados





I

Nada mais me desespera
quanto uma guitarra de silêncio,
desgarrada
na voz da rapariga pálida que à janela
expõe os versos da (sua) vida parada.

Sempre que passo à beira do esquecimento
dos finais de tarde,
carrego nos ombros os dias de trabalho;
tão próximos do cansaço e da rotina.

E, assim, avanço por essas ruas calcetadas
por pedreiros e homens falecidos,
também eles esquecidos, em cada passo
que se pisa sobre a obra.

As escadas estreitas,
o alcatrão esbatido ao sol
na sombra íngreme de (…)
e as pessoas velhas

- de cabelos brancos e olhares baços -

presas
ao beiral das suas casas pequenas
cheias de murmúrios lentos,
antigos,
de vozes (es)corridas de experiência;

E, na minha impaciência,
de às vezes
alongo-me no torpor fumegado da caminhada de regresso

observando-te

inerte e perdida em versos
que a idade não te deixou calar.

Cantas como sempre te conheci,
e ao ouvir-te
sinto-me como se nunca encontrasse
o caminho de casa.


II

Recorro aos bolsos do casaco do tempo.

Toco as chaves,
mas pressinto o vazio das minhas
horas,
de ventos e sopros longos de ninguém.

Não quero, já
saber quem me fala
nem que outras bocas tentam
dizer qualquer coisa.

Não quero, ainda
responder,
prefiro ouvir (…)

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

Em dó maior



Um mês. Depois. A escrita. Nos vazios. Maldita. A espaços. Nesta minha voz. Surda. O meu túmulo impróprio. De palavras guardadas. Que me fugiram. Pelas artérias plenas. Do silêncio. Da perenidade.

Serás tu mais vulnerável que a minha fragilidade?

Por essa cegueira. Das noites infinitas. Que me denunciaram espectros. De sílabas. Imóveis. De dentro. Muito internamente. Em cada uma das bocas. Fechadas. Numa súplica:

"Sinto a poesia a alastrar-se, lentíssima, para o vale onde se dirige. Só."

O afastamento. Que alimento através de ti. De mim. Para comigo e em todos vós. Para contigo. Em moldes concretos de uma efeméride. Uma promessa. A asfixia. E a vontade. A melancolia. Numa única linha. Quebrante. Invisível. E errante. Mais ainda. O fracasso. Mas. Devagar.

O envolvimento. Da manhã nebulosa. Com a neblina. Em circunferências. De vapor. De água. De um presságio. Um vestígio. Da noite cálida. E transparente. Antecedente. E ascendente. A absolvição da utopia. O requiem doloroso. Intervalo. À abstinência. Da realidade. Do real. Eu disse-lhe. À dor
:

Um dia, previ. Sonhei que batias à porta e eu calmamente te abriria a janela daquilo que guardo. Nos olhos que nunca viste. Nos rostos e nas máscaras de outros que jamais destapaste. Sinto-me arrefecida, dizias. As minhas mãos quentes num rasto de cinza sobre a roupa. Sob a pele. Com muito medo de te queimar. Tenho coragem. E não te hei nunca de incendiar. Mas prefiro que te extingas comigo do que desapareças sem mim.

Eram apenas previsões, que um dia imaginei. Dormente de alma e entorpecido nas palavras que o sono denunciava. Perdoa-me, mas não sou capaz de deixar de escrever mesmo deitado à tua espera. Que não vens porque te deixas esgotar noutra madrugada. Não sei se chovia no teu peito ou se irradiavas sol nas tuas afeições, que não sei descrever-te de outra forma.

Tanto que o meu sonho era um feixe de luz que me encadeara dessa vez. E no fundo, bastou um dia para te distinguir. Soube quem foste e quem eras, mais de resto não. Tudo transforma-se em nada, repetias - nesses suspiros de lua que deitavas fora. E muito raramente tos ouvi. Até porque enquanto sonhava, tu estavas longe. Tão longe que não poderás entender como respiras apressada à medida que as tuas lágrimas me encharcavam. Afogado e resgatado mais tarde, recordo. Primeiro tu, em primeiro lugar és tu quem quis em terra firme. Os braços e as pernas, depois o teu corpo na totalidade, estendido e sem se mexer. Sobrevivente. Porque fazias questão de ser forte. Porque te dizias forte. Sempre forte. E por o seres

a única fraqueza que te descobri está estampada na mágoa que trazes escondida
.

Na verdade. E agora? De hoje. Ouço as cordas do piano. Negras. Cheiros recentes. Marcas da vida. Sonatas ou solidões. Marcantes. Negras. Porque o passado. Fica? Voa. Livremente. Preso nas asas de um pássaro evidente. Límpido o traçar presente. Da sua vaga de penas. E de asas. De um costume. Num único abandono.

A revelação incerta da lamentação. Sem a menor dúvida. É uma melodia.

Em que habito. E me detenho. Com os pulmões abertos. Pelo ar. Por amor. E por mar.

sábado, 12 de janeiro de 2008

In Memoriam


Para ti, amigo
de luto, luto eu também.




Agride-me na lápide da minha consciência a não razão:

Decidiste partir antes do tempo. E deixas-me contigo num rasto de vida prematuramente interrompida.

Como dizer-te todas estas coisas que trago presas no silêncio da voz? Como te posso falar sem que me ouças na tua compreensão adulta e fraterna?

Sinto que estou errado, em tempo espaço e lugar. Em combate num embate de contradições. Não há forma que não seja a tua pessoa. Nem sequer na certeza da qual me perdi, sem saber-te na previsão de uma hora ou de um outro dia.

Queria que me arrastassem até junto a ti, novamente, para que nascendo nos teus braços pudesse dizer que foste o melhor Pai que podia ter tido.

E se em algum momento não o soube, Desculpa.

Queria adormecer sob o teu coração na ternura e na junção de te ter comigo, de novo, sabendo que sou o teu filho, que me reconheces em todos os meus gestos e feições e que fui o filho que sempre quiseste como o melhor Pai que alguma vez pude ter.

Fere-me a tua impossibilidade. O teu rosto a ficar cada vez mais magro em tempo seguido. A fragilidade dos teus abraços que ainda senti na força imposta dos meus.

Porque me magoa tanto a doença

- A cama e os lençóis brancos, os horários a que não regressarei nunca mais. Porque não quero refazer os meus passos nesse sentido do fracasso. Seja rever-te debilitado ou de ter que não te ouvir dizer uma única palavra. O estado amorfo dos teus olhos, agora sempre tão tristes e as doses químicas a que te sujeitavas – nunca mais - ao menos por uma expressão de paternidade. Não quero redescobrir esse cheiro de pele queimada pela cinza que foi o meu sopro, no teu fim.

Quero que aceites a minha gratidão. A sinceridade o mais possível de olhos nos olhos te dizer que fomos uma vitória. Um e outro. O jeito de sermos dois corpos para a mesma alma. Duas existências consagradas a ocuparem a mesma identidade.

Embora uma mão me aperte o nó da garganta, Pai, não me esqueço cada conversa que tínhamos, soltas as aves no seu primeiro voo. E de todas as aprendizagens que me ensinaste, a mais difícil é porque não me despeço de ti. Nem hoje nem jamais.

Apesar da solidão, Pai, não sei recordar-te que não seja desde a primeira respiração até à última imagem: a tua presença. O facto de contar contigo para cair e levantar-me ao darmos as mãos. O chorar e o rir sem importância. Mais: o tanto que a morte de um pouco tanto de mim abdica na tua ausência.

Porque se me deixas desta maneira é sem volta. Tu não regressarás nem eu irei pelo mesmo caminho.

Quero ser forte mas como o faço, Pai?

Pudesse eu sentar-me a teu lado, neste instante já. Escutar com atenção o que guardas para os últimos segundos. Eu que nada consigo ter nem dar, por agora.

Desculpa.

Manhã de noite. Madrugada ofuscantemente clara. Quase que me cega a tua falta que não te posso demonstrar. Pudesse frente a frente pedir-te para ficares durante mais alguns anos. Tantos os que imagino em diante e tos queria oferecer de testamento. Porque o que receber de futuro será - com o devido respeito - o resultado da tua estadia na minha caminhada. O guia desta viagem que desconheço mas que se assim me conheço e contigo pareço: o teu filho de ti.

Secam-me as veias na amarga candeia dentro do peito. Houvesse luz daqui a pouco nos sinais com que me deixaste contigo. Houvesse a oportunidade que desejei e procuro:


Arde-me o que não sei escrever nem dizer, Pai


Sobre a tua face de pequenino e no rodar das minhas mãos, aconchego-me da tua carne no meu pesar. Vou ficar o mais próximo possível, de ti, para que não nos abandonaremos em sentido contrário, para que mantidos em paz ficaremos e – como teu hábito de não me deixares errar,para que eu e tu – sejamos a linha entre a terra e o céu. Inseparáveis.

Acredita-me:
enquanto morreste-me, sofro-te

E com todo o amor, beijo-te suave e eternamente.


Teu.